de uma tarde nublada
a uma noite chuvosa
sem trovões
a trilha dos meus pensamentos
cada vez mais longe
de uma tarde nublada
a uma noite chuvosa
sem trovões
a trilha dos meus pensamentos
cada vez mais longe
o barulho
de vidro quebrado
cortando o ar
ainda poucas folhas caem
quando o outono realmente vai chegar?
no céu parado
as únicas nuvens
são as folhas da palmeira
“só mais um pouco”, pensei
mas a mosca chegou antes
do despertador
ah, se eu soubesse
imitar sua canção
triste cigarra…
mas agora o calor passou
e você se foi também
dois copos de preguiça
com um pouco de pressa:
misturo até ficar da mesma cor.
passo o estresse em cima da raiva
e mastigo.
esqueci de botar o sarcasmo
tomo junto com o pouco de motivação
que tenho guardada: o gosto fica meio estranho,
mas não adianta, se não como (um pouco que seja)
de sarcasmo pela manhã, sinto falta ao voltar.
como ou não como
um pouco de remorso?
acabo me entupindo dele o resto do dia
mas nunca deixo de tomar pela manhã…
depois disso, tomo o meu suco de maçã
e saio.
“O poeta é um inútil” —
e é por isso
que todos falam mal deles, os poetas:
quiseram eles serem inúteis também,
mas faltou ação, faltou audácia,
faltaram todas as felicidades tão necessárias
para alcançar a inutilidade.
as rodas se movem
no brilho do asfalto -
o ar de verão parado
até que a noite chegue
até que eu feche as janelas.
o canto das cigarras me envolve nesta noite de verão
o vento fresco e sem nuvens bate em meu rosto
as formas borradas das árvores estão à minha frente
a luz fraca das estrelas, acima dos meus olhos.
há muito tempo não pensava em nenhuma dessas coisas
nesse tempo fui cego, surdo e mudo, afinal.
não te deram nada e você come
não te oferecem nada e você bebe
não te falam nada, você aprende
os outros dormem e murcham, você não.
.
ó monstro! sua sujeira provoca
trovões nos corações desavisados,
ó monstro, tu existes,
tua realidade é a perdição dos realizados.
.
ó monstro, tu existes,
sabes muito bem o que a vossa presença causa,
ó monstro, sua existência
nos deixa amargo o sabor das coisas altas.
às vezes me deixo cair
nas certezas da minha mente -
aconchegantes, como se um colchão
tivesse sido posto ali
com apenas esse propósito.
noite, dia, noite, dia
acordo de vez em quando ao ouvir alguém dizer,
“os dias têm ficado cada vez mais curtos,
o mês passou e eu não senti,
nossa, já é verão de novo?”
ouço tudo isso,
concordo (não conheço alguém que não concorde),
volto a dormir, ou então às vezes
quando o tédio é muito, reclamo dos dias também.
já não consigo me lembrar de momentos
importantes, de sorrisos, de angústias -
heranças dadas a mim por alguma outra pessoa
que hoje já são pó, como ela.
Quando foi que as minhas palavras
se tornaram mais reais
do que eu?
o sol já se pôs
mudando as cores do céu
ou são só nuvens?